PEDAGOGIA DA OBEDIÊNCIA: RELIGIÃO E TRABALHO NOS LIVROS DE LEITURA OITOCENTISTAS
DOI:
https://doi.org/10.56238/sevened2026.022-018Palavras-chave:
Ensino da Leitura, Religião Católica, Manuais Escolares, Trabalho e Disciplinamento SocialResumo
Este artigo analisa a relação entre o ensino da leitura, a religião e o trabalho na instrução primária no Ceará, na segunda metade do século XIX, tomando como principais fontes os manuais escolares utilizados à época, especialmente os livros de leitura de Abílio Cesar Borges e o Método Facílimo de Emílio Achilles Monteverde. Argumenta-se que tais impressos, longe de se limitarem à alfabetização, funcionaram como instrumentos de difusão de uma moral cristã católica articulada a um projeto de disciplinamento social. Por meio de fábulas, historietas, máximas e imagens, esses livros inculcavam valores como obediência, resignação, temor, caridade e valorização do trabalho, contribuindo para a formação de sujeitos dóceis, economicamente úteis e ajustados à ordem vigente. O estudo evidencia que a leitura era concebida não como prática autônoma ou voltada ao prazer, mas como meio de internalização de normas morais e religiosas, frequentemente baseadas em uma pedagogia do medo e da culpa. Nesse contexto, religião e trabalho aparecem como pilares complementares na construção de uma ética voltada à manutenção da hierarquia social, especialmente no que se refere às camadas pobres, para as quais a instrução primária destinava-se à formação de mão de obra disciplinada e obediente. Ao mesmo tempo, destaca-se o papel da Igreja e das elites letradas na legitimação dessa ordem, bem como o uso dos manuais escolares como veículos de um projeto civilizador que buscava conciliar progresso, fé e controle social.
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