A SECA, A MISÉRIA E A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NA SOCIEDADE BRASILEIRA DO SÉC. XIX: A NORMALISTA, DE ADOLFO CAMINHA

Autores

  • Ana Cristina Alves de Paula Barreto

Palavras-chave:

Naturalismo, A Normalista, Seca, Violência Contra a Mulher

Resumo

O romance A normalista (1893), de Adolfo Caminha, constitui uma das obras mais expressivas do Naturalismo brasileiro, ao conjugar rigor estético com denúncia social. Inserido no contexto urbano de Fortaleza do final do século XIX, o enredo transcende a trajetória individual de sua protagonista para expor um quadro social marcado pela seca, pela miséria e pela violência contra a mulher. A narrativa revela como a seca, mesmo não ocupando o centro da trama, configura-se como elemento estruturador da pobreza e da migração, ampliando o contingente de marginalizados nas cidades e intensificando as desigualdades. Esse processo aprofunda o ambiente de precariedade material e simbólica, dentro do qual a violência de gênero assume dimensão estrutural. Caminha, ao articular os pressupostos naturalistas com a realidade brasileira, constrói uma crítica contundente às engrenagens de uma sociedade regida pela hipocrisia e pelo patriarcalismo. A protagonista encarna a condição da mulher subalternizada, aprisionada em um sistema que, sob o discurso da moralidade e da honra, legitimava abusos e violências. A obra, assim, não apresenta tais violências como exceções, mas como práticas sistemáticas e institucionalizadas. Essa abordagem insere-se na tradição naturalista inspirada por Zola, mas ganha contornos singulares ao denunciar problemas específicos do Brasil, como a persistência da miséria decorrente da seca e o peso das estruturas patriarcais. Sob a perspectiva crítica de Antoine Compagnon, A normalista reafirma a oscilação entre estética e engajamento, funcionando simultaneamente como documento social e como construção literária. Caminha alia o determinismo naturalista à crítica moral, demonstrando que a literatura pode ser instrumento de reflexão ética e política. Assim, o romance ultrapassa seu tempo histórico, permanecendo atual pela forma como tematiza a violência contra a mulher e a desigualdade social, questões ainda presentes no Brasil contemporâneo. Nesse sentido, A normalista confirma a força do Naturalismo brasileiro ao retratar, de modo rigoroso e engajado, os dilemas de uma sociedade em crise.

DOI: 10.56238/sevenVIIImulti2026-062

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Publicado

2025-12-29