UMA ANÁLISE CIENTIFICISTA DA CONDIÇÃO DA MULHER: A EMPAREDADA DA RUA NOVA, DE CARNEIRO VILELA
Palavras-chave:
Naturalismo, A Emparedada da Rua Nova, Cientificismo, Condição da MulherResumo
O romance A emparedada da Rua Nova, de Carneiro Vilela, publicado entre 1909-1912, ocupa um lugar singular na literatura brasileira por articular o realismo-naturalismo com tradições culturais do Recife oitocentista, construindo uma narrativa que combina ficção, lenda urbana e crítica social. A trama parte da história de uma jovem emparedada viva por seu próprio pai, como punição por transgredir normas morais e patriarcais, erigindo-se em metáfora da violência de gênero e do controle absoluto sobre o corpo e a subjetividade feminina. Nesse sentido, a obra transcende o registro ficcional para refletir as estruturas sociais e os mecanismos de repressão característicos do patriarcalismo vigente. O cientificismo, em sua vertente naturalista e determinista, permeia o romance como justificativa ideológica para a repressão feminina. Carneiro Vilela absorve elementos do discurso científico do século XIX, como a crença no determinismo biológico, na hereditariedade e na fragilidade moral das mulheres, inscrevendo-os no enredo como fundamentos para a imposição de limites à liberdade feminina. Essa inserção de discursos científicos não ocorre de forma neutra: ao mesmo tempo em que reproduz uma mentalidade típica de seu tempo, o autor evidencia as contradições e os abusos de tais concepções, convidando o leitor a refletir sobre seus efeitos na vida social. O emparedamento, enquanto núcleo narrativo, torna-se uma poderosa metáfora da opressão de gênero. O gesto de enclausurar e silenciar a mulher revela a face extrema da cultura patriarcal, que transforma o corpo feminino em objeto de punição e honra familiar. Tal representação expõe como o patriarcalismo se legitimava não apenas pela tradição, mas também pela autoridade do saber científico, então em ascensão. A análise da obra, portanto, permite compreender como literatura, ciência e sociedade se entrecruzam na denúncia de uma violência estrutural, cuja permanência ainda ecoa nos debates contemporâneos sobre a condição feminina.